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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No Brasil, temos 103 moedas locais circulando em paralelo ao real. Novos tipos de dinheiro que funcionam.

Atualmente, há 103 bancos comunitários ativos no Brasil, ou 103 moedas locais circulando em paralelo ao real. Quem contabiliza (desde 2005) e incentiva a prática, através de editais que ajudam a estabelecer novas entidades, é a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes-MT), órgão ligado ao Ministério do Trabalho. "Não é necessária a certificação do Banco Central porque os bancos comunitários não são um agente financeiro. São associações, que não visam lucro, e querem apenas estimular a economia local", afirma Haroldo Mendonça, coordenador de finanças da Senaes.

A circulação da moeda local segue na prática três princípios: os comerciantes aceitam utilizá-la se quiserem, há o lastro em real (o que permite que comerciantes façam câmbio com a moeda oficial) e a circulação está restrita a um território específico. Grande parte dos bancos comunitários brasileiros possui parcerias com a Caixa Econômica Federal para pagar o Bolsa Família, por exemplo. Segundo Haroldo, a grande maioria das moedas criadas traz a identidade local estampada já no nome. "O processo de criação é algo pedagógico que envolve a valorização da geografia local. Não é uma questão de marketing, é uma questão de fazer sentido para aquela comunidade".
Abaixo, contamos alguns casos de comunidades do Brasil e no mundo que acreditaram nessa ideia:
Palmeiras, bairro de Fortaleza (Ceará)
Moeda: Palmas
O primeiro banco comunitário criado no Brasil foi o Banco Palmas em 1998 com o objetivo de oferecer uma nova modelagem de instituição bancária. A sua instalação possibilitou levar microcrédito e serviços financeiros ao conjunto habitacional de Palmeiras, em Fortaleza, que, em 2007, virou bairro. Hoje, conta com mais de 47 mil moradores. Um "palmas" vale R$ 1 e só pode ser aceita dentro do bairro - 247 estabelecimentos aceitam transações com a moeda social.

Em 2006, o Banco Palmas associou-se ao Banco do Brasil e passou a atuar como correspondente bancário - possibilitando a aberturas de contas, transferências e poupança. Em 2010, conectou-se à Caixa Econômica Federal e os moradores puderam receber crédito do Bolsa Família em "palmas". Atualmente, o Banco abre 200 contas por mês e repassa benefícios do programa federal para mais de 2000 famílias. De acordo com o coordenador de crédito do banco, Asier Ansorena, 12 mil pessoas foram atendidas em 2013 e 2000 receberam crédito produtivo.  
Interior do Banco Palmas, em Fortaleza (Foto: Wikimedia Commons)
O sucesso gerou a criação do Instituto Palmas, entidade que presta consultoria a várias outras do país e repassa a metologia de implantação de um sistema local. O Banco Palmas é case de destaque no Brasil e no exterior e na Copa das Confederações promoveu debates, apresentações artísticas e visitas de turistas à comunidade - o que será replicado durante a Copa do Mundo. 
Banco Tupinambá (Brasil) 
Moeda: Moqueio
Parte significativa dos 7000 mil habitantes da comunidade Baía do Sol, na Ilha do Mosqueiro, em Belém do Pará, utiliza hoje o moqueio – seja para comprar gás, obter crédito ou pagar a luz. “É um papel moeda normal – com marca de segurança e lastro – que circula internamente para promover o desenvolvimento”, afirma Maria Ivoneide do Vale, coordenadora do Instituto Tupibambá. Segundo Maria, há um comitê local que avalia a liberação de microcrédito e a moeda funciona como uma espécie de cheque. O usuário utiliza o moqueio e o banco faz a troca com o comerciante (em reais). Para incentivar o uso, comerciantes oferecem desconto a produtos pagos com moqueio. “Antes do banco, 2% da população comprava no bairro – o restante era fora. Hoje, o dinheiro fica aqui – cerca de 83%. Temos até três panificadoras e frigoríficos”, conta. A difusão do uso moeda foi motivada por prêmios recebidos de empresas. “Antes não conseguíamos ganhar a confiança. Com o prêmio, conseguimos criar um fundo para emprestar crédito e ganhar credibilidade”.
Banco dos Cocais (Brasil)
Moeda: Cocal
Localizada a 250 de Teresina, São João do Arraial movimenta a economia com a moeda social, Cocal  (Foto: Divulgação)
Inaugurado em dezembro de 2007, em São João do Arraial, o Banco dos Cocais é o primeiro banco comunitário do Piauí. Foi aberto com o objetivo de fortalecer a economia local – movimentada principalmente pelo extrativismo de babaçu –, levando acesso financeiro à pessoas de baixa renda. Antes da criação do banco, os moradores precisavam viajar 30 quilômetros até Esperantina para ir a uma agência bancária. “O diferencial de fato de uma moeda própria é o fortalecimento da comunidade, com maior fluxo de compra, estímulo ao artesanato, pequenas lanchonetes e comércio. A moeda se socializou e as pessoas entenderam que quanto mais você investe no comércio local, mais você contribui para o desenvolvimento do município”, afirma Mauro Rodrigues, diretor do Banco dos Cocais.
Segundo Rodrigues, cerca de 500 estabelecimentos aceitam transações em cocais – praticamente o número total da cidade. Uma lei da prefeitura permite o pagamento de até 30% do salário de servidores em cocais. Os moradores podem pagar contas de gás e luz – em valor parcial ou total – na moeda social. “Há uma valorização da cidade também. Hoje, você pergunta onde fica São João do Arraial e muita gente sabe por conta do banco”, conta Rodrigues.
Bristol Credit Union (Inglaterra)
Moeda: 
Bristol Pounds 

"Pessoas não vão ao shopping apenas para comprar. Vão ao shopping para encontrar-se. Com a moeda local, há interações maiores entre as pessoas nas ruas e a vida em comunidade fica mais intensa", afirmou o empreendedor Chris Sunderland em um vídeo promocional da Bristol Pounds. Em 2012, ele liderou o lançamento de notas de dinheiro específicas que só poderiam ser trocadas na área metropolitana da cidade de Bristol. O objetivo deles não era concorrer com a libra esterlina, mas criar uma economia local mais “feliz e conectada”. A Bristol Pound hoje é uma empresa sem fins lucrativos que controla o Bristol Credit Union – onde as pessoas podem abrir contas e fazer transações financeiras. 1 Bristol Pounds vale 1 libra esterlina e pode ser utilizado em centros comerciais e empresas de serviços cadastrados.

Para utilizar a moeda e realizar transações com o celular é preciso ser um membro da Bristol Pound – a pré-condição é morar, trabalhar ou estudar na região (que engloba , Bath & North East Somerset, North Somerset and South Gloucestershire). Segundo o site da empresa, trocar libras esterlinas por bristol pounds – e vice-versa – é gratuito. A empresa também afirma que as transações são seguras porque para cada moeda local que circula em Bristol há uma libra esterlina depositada no banco. O lema dos defensores da moeda local é “Comunidades fortes geram negócios fortes".
 
De acordo com o site oficial da moeda, há $80,000 Calgary Dollars circulando em Alberta para transações de compra e venda de mais de 1000 bens e serviços. (Foto: Divulgação)
Calgary (Alberta, Canadá)
Moeda: Calgary Dollars
Em Alberta, a circulação da Calgary Dollars desde 1995 é fruto de uma tentativa de moradores para apoiar e fortalecer os negócios locais. O dinheiro circula com notas $1, $5, $10, $25, $50 – onde 1 Calgary Dollar vale 1 dólar. De acordo com o site oficial da moeda, há US$ 80.000 Calgary Dollars circulando na cidade para transações de compra e venda de mais de 1000 bens e serviços. Para conseguir as primeiras notas, é preciso fazer um cadastro no site oficial da moeda. Quando o registro for completado, o interessado irá receber US$ 20 Calgary Dollars para gastar. Para tornar-se um participante ativo e conseguir mais dinheiro é preciso vender um produto ou serviço (a ser realizado na cidade) no Calgary Dollars Market – uma lista que reúne pessoas e estabelecimentos que utilizam a moeda local.

 
Moradores da Philadelphia, nos Estados Unidos, trocam Equal Dollars (Foto: Divulgação)
Filadélfia (Pensilvânia, Estados Unidos)
Moeda: Equal Dollars Community 

Fundado pelo Resources for Human Development in 1995, a Equal Dollars Community Currency tem por objetivo empoderar e enriquecer a comunidade local dando valor a ativos não utilizados ou subvalorizados nos Estados Unidos. É um sistema monetário de escambo: quem fizer parte da comunidade pode oferecer bens e serviços em troca de Equal Dollars – que vem em notas de 1, 5, 10 e 20. Uma feira de alimentos é organizada toda semana para estimular a troca da moeda – em descontos ou mantimentos.   “O dólar americano é bom, mas nós sentimos falta de algo que faça as pessoas trabalharem umas pelas outras e todas pela comunidade, que estimule a troca de bens ou serviços entre as pessoas da comunidade – em uma grande economia isso é mais complicado”, afirmou Bob FIshman, presidente da RHD em entrevista à CNN. 

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