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sábado, 12 de julho de 2014

Chefe de Dilma e de Fidel, Putin: Nova ordem mundial à moda russa

10/07/2014 - 19:35:21
Ao chegar a Cuba, nesta sexta-feira, como parte do seu giro pela região antes de participar da reunião dos Brics, em Fortaleza, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anuncia o perdão de 90% da dívida externa da Ilha de Fidel com a extinta União Soviética, um montante de US$ 36 bilhões. Os 10% restantes serão pagos a longo prazo por Cuba, que também assina o antigo parceiro acordos na área de energia, abrindo a exploração do petróleo da ilha aos russos.

Rússia de olho na expansão dos negócios com a América Latina

“Hoje a cooperação da Rússia com os países latino-americanos é uma das áreas principais e promissoras da política externa. Somos unidos por um compromisso com os princípios do multilateralismo nos negócios internacionais, o respeito ao direito internacional, o reforço do papel central da ONU, garantia do desenvolvimento sustentável. Tudo isso nos torna parceiros naturais na arena internacional, nos permite desenvolver a cooperação em uma ampla gama de questões.” A afirmação foi feita pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, em entrevista à Prensa Latina, publicada com exclusividade pelo MM. 



Os líderes russos não visitam a América Latina tão frequentemente como as outras regiões do mundo. O que – no sentido amplo, não só material – pode a América do Sul dar à Rússia de hoje, e o que a Rússia pode dar à América Latina?

As relações entre os nossos países e, o mais importante, entre os povos, não podem ser avaliadas pelo número de visitas no nível mais alto. O mais importante são os benefícios mútuos que a nossa cooperação traz. E é isso que é a base mais estável dos laços multifacetados entre a Rússia e a América Latina.

A América do Sul ou, falando mais amplamente, a América Latina é um continente original e próximo a nós em espírito e cultura. Pinturas de muralistas mexicanos e tango argentino, condor peruano fazem parte do patrimônio mundial há muito tempo. Todos nós somos inspirados pelas obras do grande escritor e pensador colombiano Gabriel García Márquez, admiramos as obras do eminente arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.

A América Latina é uma fonte rica de recursos naturais – petróleo e bauxita, água doce e alimentos. Os países da região têm uma experiência muito interessante de terem criado um modelo bem estável de desenvolvimento democrático e crescimento econômico com um forte componente social.

Temos grande respeito pela história da luta dos povos da América Latina pela independência, pelo direito de assumir o controle do seu próprio destino. São bem conhecidos no nosso país os lendários Bolívar e Martí, Che Guevara e Salvador Allende. “Continente flamejante” não é apenas uma caraterística de uma certa etapa do passado latino-americano. É um símbolo da aspiração a uma vida melhor, prosperidade, progresso e justiça social.

Hoje a cooperação da Rússia com os países latino-americanos é uma das áreas principais e bem promissoras de política externa. Somos unidos por um compromisso com os princípios do multilateralismo nos negócios internacionais, o respeito ao direito internacional, o reforço do papel central da ONU, garantia do desenvolvimento sustentável. Tudo isso nos torna parceiros naturais na arena internacional, nos permite desenvolver a cooperação em uma ampla gama de questões. Estamos agradecidos aos sul-americanos pelo apoio as nossas iniciativas internacionais, incluindo a demilitarização do espaço exterior, consolidação da segurança de informação internacional, combate à glorificação do nazismo.

É de importância fundamental para nós que, independentemente de qual força política chefia um ou outro país da região, nas relações com a Rússia permanece a continuidade que reflete os principais interesses nacionais.

Falando do lado material da cooperação, tentamos ampliar a interação econômica e comercial, em primeiro lugar, o componente de investimentos. Estamos interessados em promover alianças de projetos, produção e tecnologia com participação dos países da região, proveito máximo das economias complementares, cooperação em tais áreas importantes como energia de gás e petróleo, hidroenergia e energia nuclear, construção de aviões e helicópteros, infra-estrutura e, ultimamente, biofarmacêutica e tecnologias de informação.

Continuaremos a continuar a prestar aos latino-americanos assistência prática para combater novas ameaças, inclusive a formação de representantes dos órgãos responsáveis pela segurança nos cursos regionais antidrogas em Lima e Manágua. Reforçaremos a interação concreta no rescaldo de desastres naturais.

Achamos importante contribuir para a expansão dos laços humanitários, intercâmbios entre estudantes, juventude e turistas, contatos entre as pessoas. Sem dúvida, ajuda a alcançar esse objetivo o regime de isenção de visto recíproca introduzido nos últimos anos para os nossos cidadãos, abrangendo quase toda a América do Sul e vários países da América Central e do Caribe, e o número de tais países ainda vai crescer.



Como o senhor se sente em relação às novas plataformas de integração na América Latina, como Celac, Unasul e Alba? Que laços com essas associações poderia desenvolver a Rússia?

Estamos interessados em uma América Latina forte, economicamente sustentável e politicamente independente, unida, que está se tornando uma parte importante de uma ordem mundial policêntrica emergente. Nessa região, existe forte tradição de liberdade e respeito por outras pessoas e culturas e, normalmente, não há graves conflitos entre os países, nem desejo de apoiar a política de dividir para reinar. Pelo contrário, aqui estão prontos para trabalhar juntos para proteger a “casa latino-americana” comum.

Os processos de integração na América Latina refletem em grande parte as tendências mundiais do desenvolvimento da integração regional e atestam o compromisso com a consolidação política na região, com reforço da sua influência nos negócios internacionais.

Gostaria de destacar a formação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Trata-se de uma associação de todos os países do continente direcionada para se tornar um fórum para examinar os assuntos regionais sem participação e interferência de forças externas. Saudamos a prontidão da Celac para fomentar os laços fora da região, inclusive com a Rússia. Ano passado foi realizada em Moscou reunião dos chanceleres da Rússia e da tróica ampliada da Comunidade. Agora é importante definir as áreas concretas da cooperação. Estamos prontos para esse trabalho.

Achamos bem promissora a promoção de contatos entre a Celac e os países da União Aduaneira – Espaço Econômico Único. A Rússia, junto com Bielorússia e Cazaquistão, estão aprofundando os processos de integração – em maio passado firmaram acordo sobre a criação da União Econômica Euroasiática, que começará a funcionar já a partir de 1 de janeiro de 2015. Está em formação um dos maiores mercados do mundo – com população de quase 170 milhões, com circulação livre de capitais, bens, serviços e mão-de-obra. O mercado baseado em princípios universais, normas e regras da OMC. Isso faz contribuição significativa para as condições na área de negócios no espaço euroasiático, amplia as possibilidades para promover contatos empresariais mutuamente vantajosos com os parceiros externos.

Estamos abertos à interação substantiva com todas as associações da região latino-americana. Além da Celac, falou da Unasul, Mercosul, Alba, Aliança do Pacífico (AP), Sistema de Integração Centro-Americana (Sica), Comunidade do Caribe (Caricom).

O mais importante é que todas essas associações, promovendo seus laços externos, trabalhem para a unidade, ao invés da separação dos países latino-americanos, inclusive conforme critérios políticos e ideológicos. Contamos que a consolidação da cooperação multilateral servirá como um fator adicional no desenvolvimento bem-sucedido das nossas relações bilaterais com os parceiros latino-americanos.


Cuba

Rússia e Cuba têm tradição de muitos anos de relações bilaterais e procuram desenvolvê-la no espírito da parceria estratégica. Qual é o fundamento das relações russo-cubanas hoje em dia? Como vê o futuro delas?

A base das relações russo-cubanas é uma tradição longa de amizade sólida e experiência rica, em grande parte única, da cooperação frutífera. O povo russo tem simpatia sincera e respeito pelos cubanos. Estou convencido de que esses sentimentos são recíprocos.

Nos anos 90 do século XX, os ritmos da nossa cooperação bilateral baixaram, e os parceiros estrangeiros de outros países nos ultrapassaram em várias áreas. Por exemplo, os canadenses propuseram a Cuba projetos promissores conjuntos na indústria de mineração, os europeus desenvolveram ativamente o turismo. Estamos prontos para recuperar o atraso.

Hoje Cuba é um dos principais parceiros da Rússia na região. Nossa interação é de caráter estratégico e orientada para perspectiva de longo prazo. Estamos realizando coordenação estreita da política externa, inclusive no âmbito das organizações multilaterais. Nossas posições coincidem sobre vários assuntos globais e regionais.

A tarefa principal da agenda bilateral é a ampliação dos laços econômicos à base do programa intergovernamental de cooperação econômica e comercial, científica e tecnológica para os anos 2012-2020. Estão sendo desenvolvidos grandes projetos na área de indústria, alta tecnologia, energia, aviação civil, uso pacífico do espaço exterior, medicina, biofarmacêutica.

Uma das áreas mais importantes dos trabalhos conjuntos é o incremento de intercâmbio humanitário. Já se tornou uma boa tradição a realização em Cuba de turnês de grupos musicais e teatrais russos, exposições de grande escala. Continuaremos a estreitar os contatos entre representantes da juventude e de círculos científicos, cooperação na esfera da educação e turismo. Miramos o futuro das relações russo-cubanas com otimismo. Há boas perspectivas praticamente em todas as áreas-chave da cooperação bilateral.

Os volumes de comércio e investimentos entre Moscou e Havana ainda não atingiram nível tão alto como as relações políticas e diplomáticas. Que passos a Rússia poderia sugerir para aumentar o volume de investimentos russos em Cuba e elevar significativamente o nível da cooperação na área de comércio entre os dois países? Existem projetos grandes em Cuba dos quais participarão empresas russas?

Os laços russo-cubanos na área de comércio e investimentos têm grande potencial. Para aproveitá-lo de forma eficaz, funciona de forma regular comissão intergovernamental, cuja 12ª reunião está planejada para outono do ano corrente em Havana. Existe cooperação intensa entre as estruturas empresariais – Conselhos Empresariais Rússia-Cuba e Cuba–Rússia. As nossas empresas tradicionalmente participam da Feira Internacional de Havana anual: em 2013, 50 empresas russas apresentaram seus produtos. Acreditamos que existem todas as possibilidades para passar ao nível qualitativamente novo da cooperação – inclusive por projetos grandes conjuntos. Em particular, em agosto de 2013, a S/A Zarubezhneft iniciou a perfuração do primeiro poço de produção no campo Boca de Jaruco.

No futuro próximo – exploração de novos campos na plataforma continental de Cuba. A S/A Zarubezhneft e a S/A NK “Rosneft estabeleceram interação ativa com a estatal cubana Cupet por esses fins.



A S/A INTER RAO pretende aderir à construção de blocos de energia para a usina termelétrica Máximo Gómez e Havana Oriental. Equipamentos de energia elétrica russa estão sendo fornecidos a Cuba.

Devido ao desenvolvimento em Cuba da zona econômica especial Mariel, uma série de empresas russas, em particular, em fabricação de artigos de plástico armado, produção de autopeças, montagem de tratores e maquinaria para indústria ferroviária, expressaram interesse em promover cooperação.

Está sendo elaborado um projeto de grande escala com participação de Rússia, Cuba, com possível atração de investimentos de terceiros países para formar um grande centro de transporte. Ele visa à modernização do porto marítimo Mariel e à construção na cidade de San Antonio de los Baños de um aeroporto internacional moderno com terminal de carga.

Atribuímos grande importância à cooperação na área de alta tecnologia. Em especial, estamos trabalhando ativamente para criar na ilha uma infra-estrutura terrestre do sistema Glonass, fornecer a Cuba produtos, serviços e tecnologia na área de sondagem remota da Terra e telecomunicações via satélite.

Também atesta o caráter estratégico das relações a Rússia ter dado um passo sem precedente – cancelamos 90% da dívida de Cuba em empréstimos da época soviética. A soma total da dívida é enorme – mais de US$ 35 bilhões. O acordo intergovernamental a respeito foi firmado em outubro e está na fase final da ratificação. Ademais, os 10% restantes – US$ 3,5 bilhões – serão gastos na própria Cuba, em projetos de investimentos importantes que pretendemos selecionar e consolidar. Os objetos seriam orientados para o desenvolvimento social e econômico da república.

Como estão se desenvolvendo os laços tradicionais entre os nossos países na esfera humanitária, na área cultural e de turismo?

O desenvolvimento dos laços nessas áreas é prioritário. Dezenas de milhares de cubanos estudaram no nosso país. Anualmente damos a estudantes cubanos a oportunidade de estudar em universidades russas por conta do orçamento federal – Cuba recebeu 100 bolsas para 2014-2015.

É com grande êxito que estão sendo implementados os projetos conjuntos na esfera de teatro e arte musical. O exemplo notável é o triunfo que a apresentação de Anna Karenina pelo teatro Evgueni Vakhtangov, considerado em Cuba o melhor espetáculo estrangeiro de 2013, teve em outubro.

A Rússia participa ativamente de feiras de livro internacionais anuais em Havana, inclusive da 23ª em fevereiro. Damos muito valor à oportunidade de fazer com que os cubanos conhecerem a literatura clássica e contemporânea russa.

Acho bom que, depois de um intervalo prolongado, Cuba voltou à Associação internacional de professores da língua e literatura russa. Junto à associação foi criado um grupo de especialistas em língua russa e à base do departamento especializado da Universidade de Havana foram abertos os cursos respetivos.

O monumento verdadeiro à amizade russo-cubana é a igreja ortodoxa em Havana, inaugurada em 2008, conforme a iniciativa do líder da revolução cubana Fidel Castro.

Há menos de um mês esteve no nosso país a delegação da juventude cubana – no âmbito do programa de viagens de referência para a Rússia de representantes jovens dos círculos políticos, sociais, científicos e empresariais dos países estrangeiros Nova geração. Tais viagens se realizam já há dois anos.

Achamos mutuamente vantajosa e promissora a cooperação na área de turismo. Ano passado cerca de 70 mil de cidadãos russos visitaram a ilha. Estamos implementando as medidas para aumentar o número de companhias aéreas que realizem os vôos diretos entre os dois países. Pretendemos garantir crescimento sustentável do fluxo de turistas russos para Cuba.


Argentina

Quais os rumos principais do desenvolvimento das relações da Rússia com a Argentina? Quais as expetativas do senhor em relação à visita a esse país? Que objetivos pretende alcançar para que a visita possa ser considerada bem-sucedida?

Rússia e Argentina são unidas pela história de mais de um século de laços estreitos e atração mútua forte. Dizem que um em cada seis argentinos tem pelo menos uma gota de sangue russo. Para muitas pessoas do nosso país, a Argentina virou a segunda pátria. Em 2015 comemoremos 130 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas.

Hoje a Argentina é um dos parceiros principais, estratégicos da Rússia na América Latina, na ONU, no G20. As nossas abordagens dos assuntos fundamentais da política global são próximas ou coincidem. Temos visão única em relação à necessidade de formação de uma nova ordem mundial mais justa e policêntrica, com base em direito internacional e papel central coordenador da ONU. Bom exemplo da interação entre os nossos países foi a assinatura em maio da Declaração Conjunta da Federação da Rússia e da República Argentina sobre não ser o primeiro a colocar armas no espaço exterior.

Valorizo muito o diálogo construtivo e de confiança com a presidente Cristina Fernández Kirchner. Vejo a minha visita a Buenos Aires como oportunidade de discutir todo o conjunto de assuntos da agenda bilateral e internacional, continuar a troca frutífera de opiniões sobre os meios de aprofundamento das relações em várias áreas, traçar projetos conjuntos da cooperação mutuamente vantajosos.



O nível atual do intercâmbio comercial entre Rússia e Argentina é relativamente baixo. O que precisa ser feito, na opinião do senhor, para dar impulso às relações econômicas entre os dois países?

Em 2009 os nossos países assinaram o Plano de Ação da Parceria Estratégica, à base do qual temos trabalhado de maneira frutífera nos últimos anos e, aparentemente, alcançamos o alto nível em cumprimento dos passos previstos.

Quando falamos sobre cifras, o importante é com que comparar. Na última década o comércio russo-argentino cresceu seis vezes e atingiu o nível estável de US$ 1,8 bilhão, o que permite considerar a Argentina um dos parceiros principais da Rússia na economia e no comércio na região da América Latina.

A cooperação se realiza à base de vantagens mútuas. Por exemplo, compramos os volumes necessários os produtos agrícolas que têm demanda no nosso país.

Outra coisa é que os projetos implementados nos últimos anos pelos empresários russos e argentinos em áreas como energia, energia elétrica, setor de gás e petróleo, engenharia de transportes, ainda não resultaram em aumento significativo do intercâmbio comercial. Aqui tem espaço para aperfeiçoamento.

Pretendemos prestar atenção especial ao incremento da cooperação tecnológica e de investimentos, em particular, em energia, uso da energia nuclear para fins pacíficos, construção de máquinas. Vemos boas perspetivas para trabalho conjunto na Antártica. Pretendo abordar todos esses assuntos nas negociações com presidente Cristina Fernández Kirchner.

Em março, apareceu a informação que a Argentina poderia se tornar o sexto país do Brics. Essa idéia foi apoiada por três dos cinco países – Índia, Brasil e África do Sul. Qual é a opinião da Rússia? Seria razoável expandir o Brics? Quais os critérios para a eventual adesão de um país ao Brics?

A Rússia saúda a aspiração das autoridades argentinas de aproximar-se do Brics. É possível estabelecer uma parceria estratégica com a Argentina – como acontece com outros grandes países em desenvolvimento – em aspectos políticos, econômicos e financeiros internacionais.

No entanto, a questão da expansão do Brics não está sendo examinada em termos práticos. Primeiro é preciso ajustar os trabalhos de vários formatos de cooperação já existentes no âmbito da união. Não há critérios rigorosos para aderir ao Brics. A decisão é tomada individualmente. Hoje cada vez mais países estão enxergando as perspectivas da nossa associação. Por isso no futuro, provavelmente, surgirá a questão da ampliação gradual do Brics.

Luis Enrique González Acosta
Presidente da Agencia Prensa Latina



Em Cuba, Vladimir Putin se encontra com o velho revolucionário Fidel Castro, que já há um bom tempo não é visto em público. Em Buenos Aires, estará ao lado da endividada presidente Cristina Kirchner. E por fim, Putin no Brasil. Primeiro, na arquibancada do estádio Maracanã, depois numa troca de ideias com a presidente Dilma Rousseff, que compete pela reeleição. E talvez também pelo papel principal na cúpula do Brics no Brasil um papel que Putin, com sua espetacular aparição, bem que gostaria de assumir.
A viagem à América Latina do "Rei Sol" russo é bem encenada, e ele vai apreciar as visitas aos países que precisam dele. Um perdão da dívida para Cuba, aliado a uma nova promessa de empréstimo e a um projeto portuário binacional. Apoio a Cristina Kirchner na luta contra o processo dos fundos de investimentos, e projetos energéticos comuns. Ajuda amigável a Dilma Rousseff, para melhorar a balança comercial mútua. E, ao mesmo tempo, a oportunidade de uma aparição conjunta, como representante de uma ordem mundial multipolar. Onde quer que haja um problema, Putin, o salvador, está por perto.
A Rússia cultiva antigas alianças e novas relações de dependência. Na nova ordem mundial imaginada por Putin, a América Latina exerce um papel importante, além de possuir para ele, na qualidade de adversário de uma hegemonia americana, uma atração especial. No início do ano, o primeiro-ministro russo, Dimitri Medvedev, já havia atribuído grande importância à região, declarando abertamente: "A Rússia veio para ficar." Não se falou de parceria estratégica, mas sim de bases da Marinha russa na América Latina.
Não subestimar a América Latina
O simpático urso russo possui garras e dentes. Mas o puma latino-americano também tem garras, que só se veem quando ele as põe para fora. A América Latina não vai se entregar à Rússia. Mulheres como Dilma Rousseff e a presidente do Chile, Michelle Bachelet, não devem ser subestimadas, e também o apoio argentino à anexação russa da Crimeia foi bem posicionado. Países como o México e o Peru são autoconfiantes o suficiente para não permitirem ingerências em sua política enquanto o antigo maior aliado da Rússia, a Venezuela, tornou-se o paciente latino-americano. E, não menos importante, a própria Rússia, sob ameaça de sanções, também necessita de apoio.
O flerte russo com a América do Sul é um jogo onde há rivais dignos de serem levados a sério. Há muito a China se aventura na América Latina com investimentos gigantescos, posicionando-se entre os principais compradores de matérias-primas. O recém-eleito primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, representará seu país com nova autoconfiança na cúpula do Brics.
Resta somente a pergunta: por que a Europa, por que a Alemanha se apresentam tão tímidas nessa disputa? Economicamente, a importância da América Latina é indiscutível, as similaridades culturais são grandes: no entanto, a significância política fica muito para trás. A Europa não deve tratar como algo óbvio as tradicionalmente boas relações com o "seu" antigo "Novo Mundo".

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