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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cinco raízes da ira por ETHEVALDO SIQUEIRA


26/06/2013 - Não pretendo teorizar sobre acontecimentos sociais e políticos no momento em que eles se desenvolvem. Como todos concordam, é muito difícil fazê-lo, com equidistância mínima, porque somos tentados quase sempre a rechear essas teorias com nossas preferências e convicções políticas, numa espécie de "wishiful thinking" – uma tendência, aliás, que começamos a ver em muitas interpretações nas redes sociais e na imprensa.
Para compreender qualquer fenômeno social ou político, no Brasil atual, não podemos fechar os olhos aos fatos que caracterizam o cenário brasileiro, mencionados ou superficialmente tocados nas principais reivindicações expressas nas manifestações, que, pela primeira vez nos últimos 20 anos, ganham as ruas com tanta força.
Sejamos objetivos, sem qualquer escapismo. A meu ver há, pelo menos, cinco macroquestões que geraram a extraordinária reação de parcelas tão expressivas da população no Brasil de 2013. É nessa pauta que devemos fixar nossa atenção, conforme explicito a seguir.
1. Há uma crescente revolta contra a tributação escorchante que onera não apenas a economia do País, mas, de forma ainda mais perversa, as camadas de baixa renda e a classe média – sem oferecer, em contrapartida, serviços públicos de qualidade mínima nas áreas de sáude pública, educação, estradas federais, segurança, previdência e outros.
2. A contínua deterioração e o encarecimento dos transportes públicos só poderiam se transformar em estopim das manifestações a que assistimos perplexos. Ainda nesse mesmo setor, é incrível que o País tenha optado por uma inversão irracional de prioridade nos investimentos públicos em transportes públicos em favor desoneração e do estímulo ao uso do automóvel – que polui e entope as ruas.
3. De forma clara e inequívoca, os manifestantes repudiaram a corrupção, que parece crescer impunemente. Pense, leitor, em apenas um exemplo do governo Dilma: nenhum dos seis ministros e dezenas de funcionários de alto nível demitidos em 2011 e 2012 por "malfeitos" foi punido pelas acusações de que foram alvo.
4. Parcelas crescentes da população manifestam seu profundo desencanto com o cinismo e o oportunismo da maioria dos políticos, do Congresso, do Executivo e dos partidos. Só os chapas-brancas de todos os governos (tanto nos níveis federal, estaduais e municipais) não querem reconhecer esses fatos e preferem acusar os manifestantes "de massa de manobra de fascistas", da direita ou de outras tendências políticas. Nenhum exemplo é mais revoltante do que a desfaçatez do Congresso ao apresentar e preparar a aprovação da PEC 37 – que proíbe o Ministério Público de investigar casos de corrupção no País. O desencanto vem de longe, é claro, suas causas mais recentes decorrem das alianças espúrias da "base de apoio do governo" com figuras tão desgastadas e polêmicas como Sarney, Collor, Maluf, Renan Calheiros et caterva.
5. Como poderia ter ocorrido mobilização tão inesperada quanto à que assistimos hoje? Elementar, caro Watson: o Brasil já conta com mais de 100 milhões de internautas – a maioiria dos quais ligados às redes sociais. A mobilização que se faz neste momento por meio dessas redes é radicalmente diferente daquela que foi conduzida pela mídia tradicional em 1992, contra Collor e levou ao impeachment daquele ex-presidente. Esse fenômeno é irreversível, creiam.
É claro que há ainda muitos outros fatores objetivos e subjetivos que poderiam ser aqui relacionados. Mas, para não nos alongarmos demais, preferimos fazer propor aqui uma análise sintética, que mostrasse o cerne da questão, o resumo dos resumos do quadro brasileiro.
Nesse cenário preocupante, arrisco-me a prever que a insatisfação popular poderá tornar-se muito maior e insustentável se o governo (em todos os níveis), os partidos, os políticos e, em especial, o Congresso e não oferecerem resposta urgente às principais reivindicações que irritam e levam ao desespero tanta gente no Brasil.
Não tenham dúvida: as redes sociais continuarão a informar muito mais gente e politizar ainda mais essa massa de cidadãos-internautas, que percebe a cada minuto a mentira propagandística de que o País vive uma era dourada de bem-estar e de ascensão social.
A pior resposta à essa Primavera Tropical (como já chamam alguns observadores) será a repressão e a supressão de liberdade de manifestação e expressão, como já vimos durante os 21 anos da ditadura militar.
Cidadãos, governo e instituições precisam dar prioridade à discussão dessa pauta. Sem medo, sem protelações e sem piadinhas escapistas.
(Este texto foi reescrito a partir de um depoimento pessoal que divulguei no Facebook no dia 21 de junho de 2013.)

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